Social media and mental health: the problem of comparison

Entrevistado pela Business Voice, José Padrão Mendes aborda o tema das redes sociais no contexto da saúde mental, e as consequências da comparação constante entre o que vivemos e os momentos que os outros escolhem mostrar.

O que fica fora da fotografia que vemos no ecrã

Imagine que abre uma rede social ao fim de um dia normal, cansativo. Em 5 minutos vê que alguém recebeu uma promoção, outra pessoa está de férias e uma família partilha um jantar em que tudo parece correr bem. O seu dia teve filas, tarefas por acabar e uma conversa difícil. Porque parece, de repente, tão pequeno ao lado dos outros?

Numa entrevista à Business Voice, the neurologist and neuropsychiatrist Dr José Padrão Mendes chama a atenção para a comparação entre a vida que vivemos e aquilo que os outros escolhem mostrar nas redes sociais. É um dos temas de uma conversa sobre saúde mental que convida a pensar no lugar que damos à aprovação social e às relações.

Uma vida inteira não cabe numa publicação

Uma fotografia de férias mostra um momento. Quem a vê desconhece a discussão antes da viagem, a preocupação com uma despesa ou a noite mal dormida. Nada disso torna a imagem falsa. Apenas lembra que estamos perante uma escolha: alguém decidiu partilhar aquela parte do dia e, por evidente, guardar para si o resto — o que correu mal, ou simplesmente é “normal”.

Na nossa própria vida, temos acesso aos bastidores. O contexto é total.

Sabemos quanto custou terminar uma tarefa, o que ficou por resolver e aquilo que preferimos não contar. Se juntarmos esses bastidores às melhores imagens de várias pessoas, criamos uma comparação em que só de um lado conhecemos a história completa. Isto é um gerador constante de anxiety.

O Dr. José identifica precisamente este desencontro entre a experiência real e as versões selecionadas da vida alheia. A questão merece atenção, porque o gesto parece banal: ver mais uma publicação, passar à seguinte, continuar. Pelo meio, podemos nem dar conta da medida que começámos a usar para avaliar o nosso dia.

Quando até um dia comum parece insuficiente

Pense numa tarde tranquila em casa. Enquanto a vive, pode saber-lhe bem. Mas, depois de percorrer imagens de viagens, encontros e conquistas, talvez comece a descrevê-la como uma tarde desperdiçada. A tarde foi a mesma; o critério com que a julgou mudou.

Há uma pergunta útil nesta diferença: teria ficado desiludido com o seu dia se não tivesse visto estas partes selecionadas dos dias dos outros? A resposta pode variar. Nem toda a insatisfação vem do ecrã, e uma publicação também pode inspirar uma ideia ou aproximar-nos de alguém. Interessa perceber o que acontece naquela situação concreta, sem transformar cada utilização das redes sociais num problema.

Talvez um jantar simples não precise de uma fotografia para ter valor. Talvez uma semana sem novidades também contenha coisas que deseja preservar. Dar nome a essas escolhas permite olhar para a própria experiência com mais detalhe, incluindo aquilo que dificilmente caberia numa legenda.

Que espaço damos às conversas sem plateia?

A comparação levanta ainda uma questão sobre o que mostramos aos outros. Quando alguém pergunta como estamos, sentimos liberdade para responder sem preparar uma versão interessante?

É por esta distância entre o que se vê e o que se vive que o tema merece uma conversa demorada. Se tem filhos, também deve ter esta conversa com eles. O mundo digital é hoje parte importante do neurodesenvolvimento de uma criança ou jovem.

Esta entrevista abre caminho para pensar na forma como usamos estas ferramentas digitais, e como se relacionam com a saúde mental.

Este artigo explora apenas um dos temas da conversa. Para conhecer a entrevista completa do Dr. José Padrão Mendes à Business Voice, Read the full interview here.

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