As férias e o cansaço acumulado: a importância de saber “desligar”

Sair do trabalho nem sempre chega para descansar. Em entrevista à revista Valor Magazine, José Padrão Mendes oferece uma reflexão importante sobre férias, a disponibilidade permanente para o trabalho, e o espaço que damos ao descanso e à recuperação.

Quando as férias chegam, mas a cabeça continua no trabalho

A mala está feita, a resposta automática do email foi ativada e os próximos dias parecem finalmente livres.

Ainda assim, basta o telemóvel vibrar para a atenção regressar ao trabalho.

Uma mensagem leva a outra, surge uma decisão por tomar e a pausa começa a parecer uma mudança de cenário. O que esperamos das férias quando continuamos disponíveis para tudo o que deixámos para trás?

Em entrevista à Valor Magazine, o neurologista e neuropsiquiatra Dr. José Padrão Mendes aborda a dificuldade de descansar numa cultura de disponibilidade permanente. A conversa convida a olhar para as férias com uma pergunta que também serve para o resto do ano: estamos a criar espaço para recuperar?

Uma pausa que continua ocupada

Há uma diferença entre ter dias livres no calendário e conseguir realmente descansar. Podemos estar longe do trabalho e continuar a organizar o dia em função de pedidos, reuniões ou problemas que antecipamos. Nesse caso, até um momento agradável fica à espera da próxima interrupção. O descanso ocupa o intervalo que sobra.

Segundo José Padrão Mendes, permanecer mentalmente ligado ao trabalho, mesmo não estando presente fisicamente, dificulta a recuperação necessária para nos mantermos capazes, de corpo e mente.

Esta perspetiva muda a forma de preparar uma pausa: além de escolher o destino, importa combinar responsabilidades e limites de contacto com a equipa. O que fica entregue? Quem pode decidir? Que assuntos precisam realmente de chegar até nós?

Estas perguntas tornam visível uma parte das férias que raramente aparece nas fotografias.

Desligar envolve decisões tomadas antes da partida.

Descansar sem ter de aproveitar tudo

Muitas vezes, a exigência também aparece depois de chegar ao destino.

A agenda enche-se de visitas, deslocações e programas, como se cada hora tivesse de justificar o tempo de férias. Até ficar quieto pode parecer uma oportunidade desperdiçada. Mas quem definiu que uma pausa só vale a pena quando produz muitas histórias para contar?

Na entrevista, o médico propõe menos intensidade, momentos sem notificações e atividades leves que deem prazer. Resume essa ideia numa frase: “Recuperar exige simplicidade, não intensidade.” É um convite a deixar algum espaço por preencher, sem transformar o descanso noutra tarefa a cumprir bem.

Isso pode começar por uma escolha pequena: não encaixar mais um programa só porque ainda cabe na tarde, ou aceitar que pessoas da mesma família têm ritmos diferentes.

O regresso também merece atenção

E quando as férias terminam?

José Padrão Mendes distingue o cansaço que melhora com descanso, da exaustão persistente, acompanhada por dificuldades de sono, irritabilidade ou perda de motivação: o chamado Burnout ou Esgotamento.

Na sua perspetiva, continuar assim depois da pausa merece avaliação especializada (especialidade de Psiquiatria), em vez de esperar apenas pelas próximas férias.

O regresso pode, por isso, abrir uma conversa sobre o ano inteiro.

Que disponibilidade queremos manter? Que responsabilidades precisam de ser partilhadas? Quanto espaço fica para a vida fora do trabalho? São perguntas menos vistosas do que escolher um destino, mas ajudam a perceber o lugar que damos ao descanso nas nossas prioridades.

A entrevista deixa esse tema em aberto: como construir uma rotina em que parar tenha lugar antes de chegarem as próximas férias?

Este artigo apresenta apenas uma parte da conversa. Para conhecer a entrevista completa do Dr. José Padrão Mendes à Valor Magazine, leia a entrevista na íntegra aqui.

Partilhe este artigo:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *