José Padrão Mendes desafia a fragmentação dos cuidados médicos e explica por que devemos compreender antes de medicar.

Cuidar antes da crise: uma nova visão da saúde cerebral
Há quem procure ajuda quando a atenção já falha, o cansaço se tornou constante ou a memória começa a preocupar.
Até lá, é fácil tratar estes sinais como parte inevitável da idade, do trabalho ou do ritmo de vida. Mas será razoável esperar por uma crise para começar a cuidar do cérebro?
É a partir desta inquietação que o neurologista e neuropsiquiatra Dr. José Padrão Mendes propõe, numa entrevista de capa à Business Voice, uma forma diferente de pensar a saúde mental e cerebral. A conversa não oferece uma resposta isolada. Pelo contrário, questiona muitas das divisões a que nos habituámos.
O cérebro pode ser tratado por partes?
Para o fundador e Diretor Clínico da NeuroPsyque, um diagnóstico ou um exame, por si só, nem sempre responde ao que uma pessoa e a sua família realmente precisam. Na entrevista, explica-o assim:
“O maior desafio tem sido mostrar que o cérebro não se trata por partes. Uma criança com PHDA não precisa apenas de um diagnóstico. Um adulto com perda de memória não precisa apenas de um exame. Uma família com um filho no espectro do autismo não precisa apenas de respostas — precisa de orientação, estrutura e esperança.”
Esta passagem abre uma questão maior: o que muda quando neurologia, psiquiatria, psicologia, neuropsicologia, nutrição e tecnologias de neuromodulação deixam de funcionar como compartimentos separados?
José Padrão Mendes fala dos resultados que observa em diferentes fases da vida, mas também dos obstáculos a uma medicina verdadeiramente integrada.
Compreender antes de medicar
A conversa torna-se particularmente direta quando chega à farmacologia excessiva. O médico não rejeita a medicação quando é necessária; questiona, sim, que ela possa surgir antes de uma compreensão aprofundada:
“Muitas crianças recebem medicação antes de receberem compreensão. Muitos adultos recebem comprimidos antes de receberem explicações. Muitos idosos recebem diagnósticos antes de receberem esperança.”
É neste ponto que entram o Neurofeedback, a Estimulação Magnética Transcraniana, a tDCS e a Inteligência Artificial. São ferramentas que podem ajudar a observar e a intervir com maior precisão, mas não substituem a relação clínica. A frase usada na entrevista resume esse equilíbrio: “A tecnologia é o nosso telescópio, mas o olhar é humano.”
Mais estímulos, menos regulação
Há ainda uma pergunta difícil de ignorar: num mundo hiperconectado, estamos mais informados ou mais ansiosos? A resposta começa com uma constatação curta — “Estamos mais estimulados, mas menos regulados” — e percorre os efeitos deste ritmo em crianças, adultos e idosos.
Da prevenção à resiliência cognitiva, passando pelo estigma e pela fronteira cada vez mais ténue entre neurologia e psiquiatria, a entrevista lança várias pistas para uma mudança de paradigma.
No centro de todas está um convite simples: “Precisamos de normalizar o cuidado cerebral como normalizamos o cuidado físico.”
Este texto revela apenas algumas passagens da conversa. Para ler a entrevista completa do Dr. José Padrão Mendes à Business Voice, leia a entrevista na íntegra aqui.