Com a Inteligência Artificial em crescimento, que papel cabe ao médico? José Padrão Mendes reflete sobre a importância do contexto nos diagnósticos e tratamentos, rigor, e relação humana nos cuidados.

Conhecer melhor o cérebro também exige compreender a pessoa
Imagine uma consulta em que o médico tem acesso a mais informação do que nunca. Exames, dados recolhidos ao longo do tempo e ferramentas capazes de encontrar padrões difíceis de reconhecer estão disponíveis no mesmo ecrã. Parece um avanço evidente. Mas como entra nessa imagem a pessoa que chega com medo, dúvidas e uma vida que terá de continuar depois de sair do consultório?
É uma das questões que atravessam a entrevista do Dr. José Padrão Mendes à revista Pontos de Vista. Ao falar sobre o futuro da medicina e o percurso da NeuroPsyque, o neurologista e neuropsiquiatra propõe uma reflexão sobre o que se espera da Inteligência Artificial e sobre as responsabilidades que continuam a caber ao médico.
O que os dados deixam por dizer
Para José Padrão Mendes, o risco está em reunir informação cada vez mais detalhada sem conseguir compreender melhor quem a fornece – o paciente.
Conhecer resultados e reconhecer alterações é importante, mas a forma como alguém vive a doença também depende da sua história, dos seus receios e daquilo que deseja preservar.
“Informação não é compreensão. Dados não são significado.”
A distinção torna-se mais clara quando pensamos nas perguntas que uma pessoa pode trazer à consulta.
Vou conseguir continuar a trabalhar? Como explico isto aos meus filhos? Que mudanças consigo fazer na minha rotina?
Estas são questões que pedem tempo, linguagem acessível e uma conversa em que haja espaço para hesitar, sem a pressa habitual das consultas.
Na entrevista, o médico defende que a tecnologia deve ajudar essa relação a chegar mais longe.
O valor de uma ferramenta também se mede pela forma como permite compreender melhor uma situação e conversar sobre as escolhas disponíveis. É aqui que a precisão dos dados encontra a realidade de cada vida.
Uma decisão clínica precisa de contexto
Se a Inteligência Artificial vier a superar o médico em algumas tarefas de diagnóstico, o que torna a sua presença indispensável? José Padrão Mendes aponta a empatia, o pensamento crítico, a comunicação e a capacidade de tomar decisões responsáveis.
Reconhecer um padrão é uma parte do trabalho. Interpretar o que esse resultado significa para alguém exige outras competências.
O mesmo raciocínio aplica-se aos protocolos e às orientações que ajudam os profissionais a decidir com base no conhecimento científico disponível. O médico defende o seu uso rigoroso, com atenção às diferenças entre as pessoas.
Uma história clínica pode incluir dificuldades familiares, outras doenças ou circunstâncias que precisam de ser consideradas na decisão.
Para quem procura cuidados, esta visão valoriza a possibilidade de participar na conversa. Compreender uma proposta, colocar perguntas e falar sobre as próprias prioridades faz parte da relação clínica. Uma decisão pode ser tecnicamente complexa e, ainda assim, ser explicada de uma forma que permita à pessoa acompanhar o raciocínio.
Inovar também é saber fazer perguntas
A entrevista traz outra preocupação: como avaliar as novas tecnologias num mercado cheio de promessas? José Padrão Mendes propõe olhar para a qualidade dos estudos, a consistência dos resultados e o equilíbrio entre benefícios, custos e riscos. O entusiasmo precisa de ser acompanhado pela capacidade de pedir provas.
Essa exigência faz parte do legado que gostaria de deixar na NeuroPsyque: uma cultura de cuidado, rigor e respeito por cada pessoa, capaz de continuar para além do fundador. Ao imaginar os próximos anos, mantém uma prioridade: “A escuta continuará a ser indispensável.”
O futuro da medicina coloca, assim, uma pergunta muito próxima de quem entra hoje num consultório: como usar tudo o que sabemos para cuidar melhor de quem temos à frente?
Esta é uma leitura breve de um dos temas da conversa. Para explorar a entrevista completa do Dr. José Padrão Mendes à revista Pontos de Vista, leia a entrevista na íntegra aqui.