E se separar a mente do cérebro fizer parte do problema?

Em entrevista à Valor Magazine, o Dr. José Padrão Mendes, médico neurologista e neuropsiquiatra, explica o que se perde no tratamento médico quando o cérebro fica de um lado e a mente do outro.

O que acontece quando mente e cérebro deixam de ser tratados em separado?

Uma pessoa procura ajuda por estar a sofrer com ansiedade. Outra procura o médico na tentativa de perceber o que significam as falhas de memória que tem tido.

Entre consultas, exames e especialidades, cada uma delas pode receber respostas válidas — mas nem sempre há alguém que consiga juntar todas as peças.

O ser humano é complexo e, com frequência, sintomas distintos reportados em consultório são folhas que partilham a mesma raíz.

Esta é uma das questões centrais da entrevista que o neurologista e neuropsiquiatra Dr. José Padrão Mendes deu à Valor Magazine.

A conversa parte da experiência clínica que esteve na origem da Clínica NeuroPsyque e alarga-se a um sistema de saúde que ainda tende a atuar de forma tardia, em muitos casos quando o sofrimento já se tornou incapacitante.

Doentes entre especialidades

José Padrão Mendes descreve uma realidade fragmentada que encontrou repetidamente ao longo da sua prática:

A saúde mental era frequentemente abordada de forma fragmentada, com a neurologia, a psiquiatria e a psicologia a funcionarem de forma independente, apesar de lidarem com problemáticas profundamente interligadas.

Esta separação não é apenas uma questão de organização.

Segundo o especialista, pode atrasar diagnósticos, quebrar a continuidade dos cuidados e deixar problemas sem uma resposta completa.

A alternativa que defende é resumida numa frase que atravessa toda a entrevista: “O cérebro e a mente devem ser compreendidos como um sistema único, inseparável.”

Quando a resposta chega depois do sofrimento

Os casos de ansiedade, burnout, depressão — e a própria solidão — têm aumentado consideravelmente nos últimos anos.

Entretanto, os sistemas de saúde tentam responder a uma realidade que mudou depressa:

“A realidade é que a sociedade evoluiu mais rapidamente do que os sistemas de saúde conseguiram adaptar-se. Continuamos, sobretudo, a intervir quando o sofrimento já atingiu níveis incapacitantes.”

Quanto vale o tempo numa consulta?

A dimensão humana do tratamento surge quando o médico fala da duração das consultas.

“A saúde mental não pode ser tratada através de consultas rápidas e centradas apenas nos sintomas”, afirma.

Ouvir, compreender e contextualizar não são gestos acessórios: fazem parte do próprio cuidado. Sem humanidade e ponderação no diagnóstico, é muito difícil o tratamento ser tão assertivo e eficaz quanto poderia.

A conversa passa ainda pelo que Portugal pode aprender com outros países e por uma geração que vive um aparente paradoxo: nunca teve tanta informação sobre saúde mental, mas está particularmente exposta à comparação constante, à pressão das redes sociais e à procura de validação externa.

O resultado é uma entrevista que não separa ciência, organização dos cuidados e experiência humana.

Em vez de oferecer uma solução simples, convida a repensar onde começa a saúde mental — e por que razão procurar ajuda deveria ser entendido como “um ato de responsabilidade, maturidade e autocuidado”.

Este texto revela apenas alguns pontos da conversa. Para conhecer a entrevista completa do Dr. José Padrão Mendes à Valor Magazine, leia a entrevista na íntegra aqui.

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