
Porque é que certas memórias duram uma vida, e outras são tão frágeis ao ponto de nos esquecermos delas passado 2 ou 3 dias?
Certamente já alguma vez se esqueceu onde deixou as chaves. Mas talvez se lembre perfeitamente do cheiro da casa dos avós na infância. Não precisa de fazer qualquer esforço de memória para andar de bicicleta ou conduzir o carro passado tantos anos de aprender. Mas talvez seja difícil conseguir decorar um número de telefone.
Estas situações revelam algo fascinante: o nosso cérebro não tem apenas uma gaveta para a memória — tem vários tipos de memória, sistemas distintos, cada um com a sua função.
Compreender como estes sistemas funcionam é o primeiro passo para perceber por que certas memórias parecem frágeis enquanto outras resistem ao tempo — e o que podemos fazer para as proteger.
O Que É a Memória?
A memória é a capacidade do cérebro de codificar, armazenar e recuperar informação. Sem ela, não conseguiríamos aprender com o passado, planear o futuro ou reconhecer as pessoas que amamos. A memória é uma das coisas que define quem somos.
Mas não é um arquivo único.
Imagine-a como uma biblioteca com várias secções, cada uma organizada de forma diferente. Esta organização permite ao cérebro ser incrivelmente eficiente: guarda informação urgente num local de acesso rápido e arquiva conhecimentos duradouros em áreas mais profundas.
Memória de Curto Prazo: O Bloco de Notas Mental
A memória de curto prazo funciona como um bloco de notas temporário. Conseguimos reter cerca de 7 elementos em simultâneo, e a informação permanece acessível durante apenas 15 a 30 segundos.
Um exemplo clássico: alguém nos diz um número de telefone e repetimos o número mentalmente até o escrevermos. Se formos interrompidos, a informação desaparece. Esta fragilidade é, na verdade, útil — o cérebro não precisa de guardar permanentemente cada dado que recebe.

Memória de Longo Prazo: O Arquivo Permanente
Quando a informação é suficientemente importante ou repetida, passa para a memória de longo prazo. Este sistema tem capacidade praticamente ilimitada e pode reter informação durante toda a vida.
Memória Procedimental: O “Saber Fazer”
A memória procedimental (como proceder) guarda competências motoras e hábitos — tudo o que sabemos fazer sem pensar. Andar de bicicleta, conduzir ou tocar um instrumento são exemplos perfeitos.
O que torna esta memória especial é a sua resiliência. Mesmo pessoas com amnésia grave mantêm frequentemente as suas competências procedimentais intactas.
Memória Episódica: As Histórias da Nossa Vida
A memória episódica é o nosso diário autobiográfico.
Guarda acontecimentos e eventos pessoais do passado: o dia do casamento, as férias de verão, o primeiro dia de trabalho, os traumas etc.
O hipocampo, uma estrutura do cérebro em forma de cavalo-marinho, é essencial para estas memórias. É também uma das primeiras regiões afetadas na Doença de Alzheimer, razão pela qual os problemas de memória episódica são frequentemente os primeiros sintomas.
Memória Semântica: O Conhecimento do Mundo
A memória semântica armazena conhecimento geral: factos, conceitos e vocabulário. Saber que Paris é a capital de França ou o significado de “computador”, ou de “neuroplasticidade”, são exemplos deste tipo de memória, que não depende do contexto em que foi aprendida para existir e ser lembrada.
O Que Posso Fazer Para Proteger e Fortalecer a Memória?
A boa notícia é que a memória não é um recurso fixo — não tem um limite que nos impeça de criar novas memórias sem esqueçer outras.
Graças à neuroplasticidade, conseguimos criar novas conexões ao longo de toda a vida, e podemos sempre melhorar a saúde do cérebro.
O exercício físico merece aqui um destaque especial: as pessoas que têm na sua rotina atividade física regular estão sempre mais próximas de garantir a saúde do cérebro, e a manutenção da memória. O sono de qualidade é outro aspeto igualmente importante. É durante as fases profundas do sono que o cérebro consolida todas as memórias do dia.
Quando a Memória Precisa de Ajuda Especializada
Quando surgem problemas persistentes — dificuldade em recordar eventos recentes, perder-se em locais familiares ou repetir as mesmas perguntas — é importante procurar avaliação. Muitas causas são tratáveis, desde o stress crónico a deficiências na alimentação.
Havendo dúvidas, é sempre importante procurar despistá-los — o diagnóstico precoce faz toda a diferença, especialmente das condições neurológicas!
Existem hoje tratamentos que vão além da medicação.
A NeuroPsyque tem uma abordagem dedicada à Reabilitação Cognitiva.
Terapias como o Neurofeedback, que permite treinar padrões de atividade cerebral e melhorar o desempenho do cérebro naquilo que esteja a falhar. A Estimulação Magnética Transcraniana, que pode modular regiões cerebrais específicas ligadas à memória, com resultados significativos em casos de declínio cognitivo ligeiro.
Pontos-chave a Reter
A memória humana é um conjunto de sistemas especializados, não um reservatório único. A memória de curto prazo funciona como bloco de notas temporário com capacidade limitada. A memória de longo prazo divide-se em procedimental (competências), episódica (eventos autobiográficos) e semântica (conhecimento geral).
A neuroplasticidade permite melhorar a memória em qualquer idade através de exercício físico, sono adequado e estimulação cognitiva. Quando surgem dificuldades persistentes, a avaliação neuropsicológica pode identificar causas tratáveis, e abordagens como o Neurofeedback e a Estimulação Magnética Transcraniana oferecem vias de recuperação eficazes.
Perguntas Frequentes
É normal esquecer-me mais à medida que envelheço?
Algum grau de esquecimento é normal com a idade. Contudo, esquecimentos que interferem significativamente com o dia-a-dia merecem avaliação profissional.
Posso melhorar a minha memória em qualquer idade?
Sim. Graças à neuroplasticidade, o cérebro mantém capacidade de criar novas conexões ao longo de toda a vida, respondendo positivamente a estimulação adequada. Ainda assim, a neuroplasticidade vai reduzindo com a idade.
O stress afeta a memória?
Muito. O stress crónico eleva o cortisol, hormona que em excesso danifica o hipocampo — região do cérebro essencial para formar novas memórias.
O que é o Neurofeedback?
É uma técnica que permite treinar padrões de atividade cerebral através de feedback (resposta) em tempo real, melhorando funções como atenção e memória de trabalho.
Quando devo procurar ajuda profissional?
Se os esquecimentos interferirem com atividades diárias, se familiares notarem mudanças, se tiver dificuldade em seguir conversas, ou caso se perca em locais conhecidos. Estes são alguns dos alarmes que importa ouvir.
Dormir pouco prejudica a memória?
Significativamente. Durante o sono profundo, o cérebro consolida as memórias do dia. Privar-se de sono compromete tanto a formação como a recuperação de memórias.